Simpósios técnicos e informação: a base de lançamento da Leishmune

Para lançar a vacina, a Fort Dodge traçou uma cuidadosa estratégia de apresentação do produto aos médicos veterinários e a conseqüente educação desses profissionais e proprietários de animais quanto ao uso do produto e suas implicações. Nesse sentido, a empresa vem realizando uma série de simpósios técnicos que abordam os vários aspectos da Leishmaniose Visceral Canina e o uso da vacina como uma das ferramentas de controle da doença nos cães.

Os eventos são restritos a médicos veterinários, que estão sendo cadastrados pela Fort Dodge de forma a habilitá-los a adquirir a vacina. A empresa vem cadastrando também, por meio de visitas de representantes técnicos, os profissionais veterinários que não participaram dos simpósios.

Em vista da possibilidade de inclusão de cães vacinados em inquéritos epidemiológicos, com eventual sacrifício, como é preconizado hoje, a Fort Dodge vem orientando os médicos veterinários a alertar os proprietários de animais sobre esse risco e certificar-se de que eles estejam informados de que, uma vez vacinados, seus cães apresentarão testes sorológicos positivos para leishmaniose. Para isso, a empresa criou um atestado de vacinação no qual médico e proprietário afirmam estar cientes de que “o cão poderá apresentar sorologia positiva, estando sujeito às normas do Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral impostas pelo Ministério da Saúde”. Assim, a Fort Dodge acredita que dá aos médicos veterinários e clientes todos os elementos necessários para que escolham o que for melhor para os animais, seus donos e comunidades em que vivem. A empresa entende que há uma relação de risco-benefício que deve ser avaliada por profissionais e proprietários: vacinar significa considerar a chance de o cão tornar-se soropositivo e expô-lo, portanto, a um eventual inquérito epidemiológico, o que é relativamente raro; não vacinar, por outro lado, significa expor o cão à doença, situação bastante provável em áreas endêmicas, e, da mesma forma, sujeitá-lo às ações que vêm sendo preconizadas pelos órgãos de saúde nas últimas quatro décadas. Existe ainda a possibilidade de se realizarem testes moleculares (PCR) para se provar que um animal não está infectado, entretanto, este método ainda não foi considerado ou recomendado pelos órgãos de vigilância epidemiológica. A Fort Dodge, por outro lado, atende também ao Código de Defesa do Consumidor, que prevê o fornecimento de informações sobre todas as implicações do uso de um produto. Vale ressaltar, porém, que a população de animais atendidos em clínicas veterinárias – únicos locais em que os cães podem ser vacinados – não pode ser considerada representativa dada a situação atual; e, dentro desse grupo, é reduzido o número de cães que podem vir a ser vacinados.

“É um momento de estreitar o diálogo com o dono do cão e ajudá-lo a decidir se prefere expor seu animal à doença ou protegê-lo dela, mas ficando sob o risco de sofrer a ação do poder público”, diz o médico veterinário Jair Garcia, diretor de negócios de animais de companhia da Fort Dodge.

Para a classe médica veterinária, o capítulo da eliminação de cães poderia ser evitado. A urbanização da leishmaniose visceral e a “humanização” dos animais de estimação abrem a discussão sobre a gravidade dessa medida em oposição à possibilidade de prevenção e tratamento. Pelo menos 80% dos proprietários gostariam de ter a chance de prevenir a doença ou mesmo tratar seus animais de estimação. De acordo com Vitor Márcio Ribeiro, no Brasil o constrangimento provocado pelo sacrifício dos animais é relatado pelos agentes de saúde quando da busca dos cães para eliminação. “É um momento de forte componente emocional para as famílias”, diz o médico veterinário. São crescentes, segundo ele, as ocorrências de recusa de entregar o animal, o que mantém a cadeia de transmissão; sem alternativa, alguns proprietários removem seus animais para outros lugares, às vezes dispersando a fonte de infecção; em Belo Horizonte, uma ação judicial envolvendo um proprietário e o poder público teve resultado favorável à preservação de um cão infectado e tratado domesticamente, gerando expectativa positiva na população em relação aos animais vacinados, conclui Ribeiro.

A própria Organização Mundial da Saúde recomenda o sacrifício como medida ideal de controle, mas reconhece as limitações dessa prática em função do valor afetivo e econômico dos cães infectados. Já em países da Europa, a prática é descartada. Além disso, trabalhos realizados em vários países concluem que a retirada dos cães soropositivos tem surtido efeito temporário na diminuição da força de transmissão entre os animais; e a propagação da leishmaniose não foi significativamente afetada pela exclusiva eliminação de cães soropositivos. Não se pode deixar de mencionar ainda os casos de exames sorológicos “falsos positivos” que levaram animais sadios a serem incluídos em inquéritos epidemiológicos e posteriormente sacrificados.

A Fort Dodge acredita que a Leishmune possa vir a mudar esse quadro. Dessa forma, a empresa vem colaborando com o Ministério da Saúde no sentido de informar sobre todas as estratégias e ações desenvolvidas para a introdução da vacina no mercado. O ministério deve promover um estudo vacinal com a Leishmune com o intuito de avaliar o potencial de um cão vacinado de infectar o mosquito; e saber se um cão previamente infectado pode permanecer como reservatório da doença depois de vacinado. A Fort Dodge já colocou a Leishmune à disposição da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e da Secretaria de Vigilância em Saúde do Departamento de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde para a realização desses estudos e segue aguardando uma resposta desses órgãos.

A empresa, no entanto, com base em estudos realizados, entende que cães vacinados não permanecem como agentes de infecção do vetor. Resultados preliminares de estudos realizados por Fábio Nogueira dos Santos, doutorando da área de Clínica Médica da Unesp (Botucatu/SP) e docente da Universidade de Veterinária de Andradina (SP), sugerem que um cão vacinado não é transmissor. O estudo, realizado em área endêmica, envolveu um grupo de 32 cães vacinados e 40 cães não-vacinados. Após 11 meses do início do estudo, nenhum dos animais do grupo vacinado apresentou resultado positivo nos testes realizados, ao passo que mais de 50% dos animais testados no grupo não-vacinado apresentou positividade. Os exames incluíam o teste de PCR de aspirado de linfonodo, o mais sensível, além de imunoistoquímica de pele (exame pelo qual se detecta reação imunológica à presença da leishmânia na pele). Os resultados sugerem fortemente que os cães vacinados não representam fonte de infecção do vetor.

Os simpósios de lançamento da Leishmune já aconteceram nas cidades de Araçatuba (SP), Bauru (SP), Belo Horizonte (MG) e Campo Grande (MS). Nessas regiões, a vacinação com a Leishmune já teve início.

A Fort Dodge agora se prepara para lançar a Leishmune no Nordeste até o final de 2004. Segundo a empresa, a região ainda não recebeu a vacina porque a demanda estimada é alta, mas a produção da Leishmune é mais complexa e demorada do que a de outros tipos de vacinas e a Fort Dodge não quer deixar lacunas no fornecimento. O tempo médio de produção de um lote é de três meses. “Queremos ter o número de lotes necessário para atender integralmente à procura pela vacina nas áreas endêmicas nordestinas e, ao mesmo tempo, manter o forte controle da vacinação”, explica Jair Garcia.

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Novembro 2004